Será que já abriu?

“Será que já abriu?” – diz um jovem a outro. Estão parados na esquina, um deles escorado no poste, outro a ajeitar, repetidas vezes, o cabelo. A lua quente dá um ar calmo ao bairro, feriado, não há jogo do Corinthians. Um carro dobra velozmente o caminho, um gato foge assustado. Gato preto é sinal de mau agouro.

“Não sei… Melhor esperar um pouco mais. Se chegarmos cedo demais pode dar na cara e aí vai dar rolo…” – Uma senhora aproxima-se com a filha no colo, os dois tornam-se inquietos, a senhora vai-se, o perigo passou.

“Algum rolo como? Vai recuar de novo?” – Olhe do outro lado da rua! Uma garota aproxima-se, deveras atraente, a luz da lua e a luz do poste competem pela sua formosura – formosura acentuada pelo curto short. Os nossos dois estupefatos heróis não puderam deixar de contemplá-la, entretanto ela saiu em disparada, correndo rua abaixo.

“Olhe o que você fez! Ela saiu assustada. E então, diga, vai dar pra trás?”

“O que eu fiz? Você que ficou babando feito tonto! Não tenho culpa se ela é louca.”

“Tá bom. Tá bom. Vamos?”

“Vamos.” – a esta altura, meu caro leitor, você deve estar se perguntando o que estes dois estão fazendo na esquina e para onde vão. Quero tranquiliza-lo e por isso digo desde já que nossos jovens não são criminosos, não queriam assustar a ninguém e tampouco estão tramando algo de mal. O que ocorre é que um dos pequenos indiscretos (Se não disse antes foi por não me parecer necessário, mas como agora o é, digo-lhe: estes jovens têm quinze e dezesseis anos) pegou o endereço de uma Casa com o primo, e juntando-se com um amigo estão acampados há uma semana a algumas dezenas de metros do lugar tomando coragem para a batalha. Mas não se engane, a garota assustada de há pouco é apenas uma garota assustada, e creio que você – se uma leitora – entenderia o medo dela se durante uma semana dois indivíduos estivessem a sua espera todo dia na mesma hora, com gestos indicativos e toda a indiscrição possível em dois jovens excitados. Entretanto a ironia da vida às vezes se utiliza da ironia de paspalhões, e o que se passa que você não sabe, tampouco a garota, nem mesmo os rapazes é que o endereço da tal Casa dada pelo primo Luizinho é apenas o endereço de uma casa. Agora retornemos à rua que os dois já se aproximam do lugar.

“Tem uma luz acessa… A janela tá aberta!”

“Vamos devagar. Não fique nervoso senão não deixam a gente entrar.” – aproximam-se da janela, há um barulho vindo de dentro, tem alguém lá, são duas…

“Oi! OI! Tudo bem?”

“Ehr… Tudo.” – e saem. Passados alguns metros, correm de volta à esquina. Eram duas meninas gêmeas, que assistiam a algum desenho animado na televisão; e que gostam de assustar os transeuntes surgindo na janela do nada.

“Eu vou matar seu primo! Eu juro que vou matá-lo. E você foi idiota pra acreditar?”

“Você também acreditou. Mas ele me paga.”

“Olha quanto tempo a gente perdeu aqui à toa…”

Do outro lado da rua, retornam a garota acompanhada de um senhor grandalhão de bigode que ostenta em seu peito o símbolo do respeito imposto, porém ostenta em seus músculos o respeito em pessoa.

“São eles.”

“Ei vocês! O que querem… Parados!”

Felizmente as jovens pernas são mais rápidas e assim os dois seguem, tramando talvez o próximo plano mirabolante que dará a eles o acesso ao elixir da vida, ou a qualquer outro tipo de mistério inda não desvendado.

(DR)

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