Prólogo para “Assim falou Borba Quincas”

Muito se fala nas ruas do mais plebeu dos filósofos, o grande pensador brasileiro Borba Quincas. O estudo de sua obra no decorrer dos últimos anos têm mostrado diversas perspectivas e descobertas que permaneciam obscuras em parte por não ter deixado, o filósofo, nada escrito. É certo que seus pensamentos permanecem pungentes na mente do povo, todavia urge fazer-se recordá-los, pois é mais frequente com os anos e já se ouvem muitas falácias e inverdades, como máximas falsamente a ele atribuídas que visam corromper a filosofia deste grande homem. Assim, tomo para mim, discípulo e humilde seguidor do mestre, a tarefa, indigna, eis que nenhum homem seria digno de fazê-la, de esclarecer as lâmpadas, ligar as costuras, registrar os registros do princípio, das verdades e de como falou Borba Quincas.

Dentre os tópicos mais contraditórios e especulativos na vida de Borba Quincas, sua vida pré-filosofia é o que causa mais controvérsias. Não há consenso e nem tampouco qualquer informação a respeito de quem foi o grande ideota e de como partiu para sua jornada de conhecimento, iluminação e busca por uma verdade indubitável.

É de comum acordo entre os especialistas que Borba foi mendigo, um morador de rua no centro de São Paulo, e, como seu discípulo, reforço esta ideia, pude eu por inúmeras ocasiões sentir seu cheiro nauseabundo por dias antes que enfim regressasse de alguma viagem ou retiro espiritual ou de um porre em outro páis. A intensidade de seu cheiro guiou multidões ao seu encontro e serviu de cálculo para localização espacial quando satélites encontravam-se em manutenção. Após alguns anos seus seguidores adquiriram a habilidade de rastreá-lo com apenas uma fungada: “Opa! O mestre foi pra Argentina de novo.”.

Contudo é esse mesmo comum acordo que gera uma das questões sem respostas de sua vida, seu nome. Pode passar despercebido ao leitor desatento e até mesmo a grandes estudiosos que o nome de nosso filósofo, Borba Quincas, seja exatamente a inversão do sobrenome com o nome de outro filósofo brasileiro, Quincas Borba. Veja, se movermos o sobrenome “Borba” para a frente do nome “Quincas” temos “Borba Quincas”. Incrível, porém, é que este ainda que vivendo um século antes também andou pelas ruas como mendigo. E isso, como também uma mulher banguela que foi ouvida o chamando de Adalberto, levou-me a duvidar de seu nome de batismo.

Os mestres de Cambridge, as crianças de Genebra e os nóias da Rio Branco parecem certos de que “Borba Quincas” é uma homenagem a Quinca Borbas por assim como seu antecessor ter passado pelas ruas e seguido o passeio da iluminação pública. A inversão do nome representa que as semelhanças entre os dois filósofos não adentram no campo da ideias. Esse seleto grupo tem trabalhado para a propagação e aceitação desta corrente.

Um grupo de donas de casa desocupadas, lideradas por uma tal Dona Creuza Alcovitis, têm espalhado que Borba é bisneto de Quincas e que este veio a falecer quando o bisneto gastou sua fortuna e foi morar nas ruas. Carioca, morreu de desgosto por ver um bisneto trocar o Rio por São Paulo. Esta teoria é um absurdo, e se a cito aqui não é por dúvida de sua inverdade, mas para expô-la ao ridículo. Pois então, gargalhemos…

Como nenhuma dessas duas hipóteses é amplamente aceita pela comunidade científica, embora seja pela comunidade #2374588 da rede social de computadores, celulares e refrigeradores, esta que lhes exponho já tem ganho credibilidade sendo citada em dois artigos de estudantes bolsistas do primeiro ano de graduação na faculdade não desta esquina, mas da outra. Em um de seus muitos delírios de aguardente ouvi claramente o filósofo resmungar certas palavras, eis o que pude distinguir. Caminhava o grande homem pela Avenida Ipiranga quando um cabide azul, desses de plástico grosso, atingiu-lhe a cabeça vindo de um dos apartamentos ocupados por funcionários públicos, sempre funcionários públicos; praguejou contra o nada, mas resolveu pegar o cabide de recordação e para coçar as costas. No dia seguinte caminhava novamente pela Ipiranga para se aquecer do frio, e ao passar pelo mesmo ponto recebeu uma meia furada no cocuruto, a vestiu e pode assim suportar a noite fria. No outro dia estava com fome e lhe caiu um sanduíche. Intrigado no quarto dia desejava saber a razão de tudo aquilo e ao passar olhando para cima recebeu na face um volume da Grande Enciclopédia Britânica. Nas ruas andava sangrando e a amnésia era tamanha que nem se lembrou de lembrar que havia esquecido e ao ler a enciclopédia se identificou com a seção de um filósofo que lhe cabia na descrição, julgou ser ele, mas como a entrada trazia o sobrenome antes do nome, como é típico dos países de lá do borogodó, mas não de cá do maracujá, nomeou-se Borba Quincas.

(DR)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *