Os Homens da Lua

O poeta José da Rosa, autor do célebre verso “Esta vida só vai bebendo” e variações, poucos sabem, antes de dedicar-se às letras foi homem da lua, o primeiro deles.

 

O mais antigo registro da Grande Biblioteca Lunar, localizada nos andares mais altos da sede dos Homens da Lua, data dos primórdios do Egito Antigo. Nele é narrado a chegada de misteriosos forasteiros às margens do Rio Nilo, os quais, em pouco tempo, demonstraram-se grandes sábios. Com seus ensinamentos a colheita dos anos seguintes multiplicou-se, e a terra do Nilo prosperou como nunca antes. Um dos sábios caiu nas graças do Rei Faraó. Matemático, Yusuf projetou os primeiros magnificentes túmulos piramidais, um culto ao conhecimento  e monumento à Grande Lua, a qual iluminaria o caminho para os reis em seu pós-vida.

 

O manuscrito de Giuseppe di Carvo é outra das maiores preciosidades da Biblioteca. Filho de uma proeminente família de mercadores locais, Giuseppe ingressou jovem na irmandade. Para sua iniciação foi exigido que observasse a lua todas as noites, até que pudesse compreendê-la. O jovem contemplou-a infrutiferamente por 21 dias, até descobrir o melhor ponto de observação da cidade, uma colina próxima a residência da família de mercadores rivais. Pretendia, com uma luneta, mapear as crateras lunares ou desvendar o seu lado escuro. Todavia tudo que suas lentes viram foi uma donzela, filha única de seus inimigos; apaixonaram-se. E a cidade entrou em guerra, mortes em ambos os lados e um final trágico com a vida a se extinguir dos pulmões de sua amada. Giuseppe fugiu em um barco para a Inglaterra, adoeceu na viagem e morreu pouco depois de chegar em terra. Em seus últimos dias relatou sua história em um manuscrito, confiado a um artista local que conhecera em uma hospedaria. Futuramente a Irmandade recuperaria os escritos, mas não antes que o artista o modificasse e o publicasse como dele próprio.

 

Diversos homens da lua tiveram sua participação, obscura e discreta, nos maiores acontecimentos da humanidade. Conta-se que o Professeur Rozen foi a grande mente doutrinária do Iluminismo e teria, até mesmo, tomado armas e sido um dos responsáveis pela Queda da Bastilha. Terminou esquecido, sem registros e com a cabeça separada do resto do corpo.

 

Outros homens da lua, não menos geniais, são pessoas comuns, sem muita notoriedade. Como exemplo, o compositor J. Waters. Obcecou-se pelo lado escuro da lua, por dez anos compôs um álbum e então o descartou por uma nova obsessão: o lado iluminado. Entregou as músicas para seu primo, que as gravou com seu conjunto de rock, alcançando imenso sucesso. Quanto ao novo álbum, continua a pensá-lo sem nunca ter escrito uma letra sequer.

 

A parceria com os Homens da Lua nunca foi oficializada. O programa espacial estadunidense fracassou em seus primeiros anos, até que os governantes e chefes do agência compreendessem que não seria possível alcançar seu objetivos sem a participação deles. O brasileiro José da Rosa foi o nome indicado pela irmandade. Fora dos palanques comandou de fato o Projeto Apollo. E não apenas esteve em missões, como foi o primeiro homem a descer do módulo lunar da nave 11. Cogitou-se até americanizá-lo. Mas a ideia de naturalização foi rechaçada, não seria Joseph Rose, falso americano, o primeiro homem a pisar em nosso satélite natural. Outro tripulante levou a fama, Armstrong, que não era o músico de jazz.

 

Para superar a desilusão, retornou a seu país natal e foi morar no litoral baiano, donde passa os dias na praia bebendo cerveja e na qual surgiram inúmeras e maravilhosas poesias, muitas jamais escritas. De ruim o futebol, deu para torcer pro Bahia. Esta vida… só vai bebendo.

 

(DR)

One Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *