A crônica de uma vida crônica

Nasci. Que maçada! Agora tenho que respirar por conta, me alimentar por conta. E o mais estranho, até penso em visitar o médico, pois de fato me preocupa, blocos gosmentos e fedidos saem de trás, sempre seguidos de coceira e ardências, os grandes ficam nervosos, até deixam de me falar com vozes engraçadas e falam como entre si. Temo a morte. E a vida segue e é bela. Hoje abri os olhos e vejo outro mundo. Ó luz, é vida que nos ilumina.

Exigências e exigências. A vida cada vez se mostra mais árdua e os grandes indiferentes ao meu sofrimento – deixam-me chorar por horas e dizem que é bom para mim. Que senão vou ficar mimado. Mas o cachorro é só latir e recebe o prato. Ó vida dura, quem me dera ser o Max. Eles são cruéis, me querem de escravo – andei dois passos, cai e ralei o joelho – o choro os comoveu por pouco e logo já era forçado a repetir: “Diz papai, papai! Não, mamãe! Agora papai!” – resmunguei alguma coisa sem coragem de desafiar, porém não fui hipócrita. Parece que eles entendem o que querem. E depois, mais passos e passos. Dureza. Planos: dominar o idioma deles, assim poderei argumentar e vencê-los em sua casa; equilibrar-me em pé, poderei então decidir meus passos. E isto sem perder minha natural inteligência – o que mais receio, pois os grandes são todos burros.

Escola, meu primeiro dia. Hoje fui à escola. Um cisco entrou no meu olho e chorei. Mas tive que ir à escola. Fiz amigos na escola. O Jorge é velho na escola, já fez um ano. O Jorge é legal. A Tia brigou com o Jorge porque ele tava com o dedo no nariz. O Jorge chorou. Chorei também. O Luiz não é legal. Ele gosta de bater nos outros. Eu não gosto do Luiz. O Fabinho é meu amigo. Ele e o Jorge gostam de dormir e dormem o dia todo. Eu não dormi. Chorei. Amanhã volto à escola. Não gosto da escola. Gosto da televisão. Planos: ver televisão.

Uma grande perda de tempo. Pra que escola? Sei muito mais que os professores, aqueles velhotes não sabem nada, acham que a vida é só trabalhos e trabalhos. Descontam seu mau humor em nós. Por outro lado, eu vivo. Isso que é vida, a liberdade das ruas, as eternas amizades, a vida infla em mim. Sou eu a vida. Dizem que preciso tomar jeito, arrumar um trabalho e seguir uma carreira. Prefiro um carro. Planos: viver, continuar a viver, não me dobrarei às falsas obrigações.

O tempo está nublado, minha vida também. Terminei os estudos, a vida terminada está? Tudo mudou. Fui abandonado pelos amigos, todos com suas ocupações, cansados demais. Próxima semana começo a trabalhar na firma, vou auxiliar no escritório do Dr. Borges. Que droga! Mas o dinheiro me falta. Planos: seguir meus sonhos (serei ator, talvez diretor); ingressar em artes cênicas; sair daquele maldito emprego; voltar a levar a velha vida; comprar um carro; arrumar ao menos uma namorada – com o carro fica mais fácil.

Está findo, sou um bacharel em administração de empresas, longos quatro anos, mas valeu o fardo. Não há limites atmosfera além. Dr. Borges me chamou para auxiliá-lo diretamente, o salário não aumenta, porém sei que logo a promoção sai. Quando sair pedirei a mão de Carla. Planos: comprar um carro; casar; juntar dinheiro para o apartamento; tornar-me chefe logo, ou sair para ser gerente noutro lugar, para que tão pouco: ser diretor e depois presidente!

Vendi o carro. Dr. Borges disse que o negócio anda mal, mas melhora – logo serei promovido, estou certo, sou o mais velho na casa. Julinho não anda bem na escola, já disse para a Carla que a escola pública seria melhor, na pré-escola não faz diferença a não ser no bolso. Tudo vai melhorar. Em quatro meses saio de férias, agora não adiam de novo não, descansarei e os pensamentos virão. Estou exausto. Planos: não há planos, só quero dormir.

Não achei que superaria tão rápido. Três meses e já me sinto solteiro. Carla anda bem, de namoricos por aí; Julinho come o meu salário, pois a megera… Julinho é um bom menino, sim, ele é um bom menino. O aluguel me tira as cuecas furadas, talvez saia para uma pensão por causa daquela maldita pensão… Ele é um bom menino. Planos: intimar o Dr. Borges para a promoção; carro; mulher; dinheiro.

Ainda não superei o abatimento da morte do Dr. Borges, nunca pensei que a nova diretoria me cortaria. Vivo de bicos. Com o bico dos sapatos fui chutado. E a vida segue, estou livre do lugar que por tanto tempo me tomou as forças, livre para realizar meus sonhos. Ingratos! Planos: seguir meus sonhos; faculdade de artes cênicas; comprar um carro; reatar as velhas amizades, os velhos vínculos. Isso!

Abençoado seja! O filho da Marli conseguiu minha aposentadoria, o valor é reduzido, pouco mais que o mínimo e ainda farei alguns bicos que surjam. Sou um aposentado. Dr. Carlos quer que me cuide melhor, mude a alimentação e faça exercícios – já sou velho demais para isto. Quero é descansar, muita cama e televisão. Planos: vida.

Morri. Amanheci morto e descobri uma grande mentira: a vida não passa diante dos olhos na morte, ela está lá, todos os pensamentos, momentos e imagens juntos, tudo sentido ao máximo duma vez. Amanheci morto, mas não foi morte indolor. A dor foi diluída a todo instante de minha vida. Uma vida morrida. As forças dissiparem-se entre os sonhos tão voláteis como as nuvens. E a única sabedoria que tive foi a pura e instintiva de meus primeiros dias. Nada mais devo fazer, decomponho sem esforço. Amanheci morto naquela manhã que sai útero afora.

(DR)

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