A cidade maldita

A rodovia I.. estava interditada. Seguimos, centenas de caminhões e eu num carro pequeno abarrotado de equipamentos, caixas e instrumentadas pouco úteis para o serviço, pela Estrada Velha de M… Sabia-me atrasado, mas nada tiraria meu bom humor de viagens. Como uma criança sempre me maravilho diante da mata preservada, autoestradas que as cortam e se escondem sobre árvores centenárias, o som dos grilos e das buzinas. Um grilo tomava café no acostamento indiferente aos veículos de carga que ocupavam a faixa de automóveis. Diante de minha curiosidade infantil surge uma tenra tentação, ignorei as objeções da mente adulta e adentrei numa pequena estrada de terra batida que nunca havia notado, a qual me levaria a uma rota alternativa – a rodovia A.. – se meu senso de direção não me falhasse. Desde que esse cliente nos contratara as viagens tornaram-se rotina, relutei a princípio, mas com as horas a menos de trabalho e horas-extras não pude negar. Logo me agradaram e dispensei o estagiário para melhor observar o derredor das estradas, me ofereci para os serviços de outros clientes, no natal ganhei um passaporte de gozação, certamente ideia do Silas, um grande brincalhão, não agrega muito aos projetos, mas mantém o humor elevado. E até então não havia nenhum arrependimento. Tomei, pois, a pequena estrada, não havia carro, nem motor desmanchado à vista, inda assim não ia a velocidade maior que naquele intenso congestionamento, a cada trecho mais obscuro, a cada árvore peculiar reduzia os giros quase parando as rodas. No primeiro trecho nenhum contratempo, nos demais apenas um. Um tronco de árvore obstruía a passagem, não era grande, porém em meio ao nada sem estepe não arrisquei, reuni a coragem de meus quarenta anos e desci para empurrar o tronco afora, o escuro me paralisava, nem notei os insetos, vermes no tronco, cobras e os olhos na mata. De volta ao alívio do banco do motorista, e aos olhares oblíquos lançados ao matagal, segui feliz sem mais paradas.
Avistei a rodovia A.. satisfeito com meu senso espacial e ela estava livre, assim como minha mente purificada pelo ar florestal. Logo nuvens começaram a se adensar e uma neblina tomou forma, reminiscências do esquecimento, um déjà-vu tudo aquilo me parecia.
C.., ou simplesmente a Cidade Maldita como é chamada pelos habitantes dos municípios vizinhos, pois em suas ruas não há casas, em seus prédios não há vida, toda vida é passageira, e a cada passagem se encurta sugada pela Usina. As grandes chaminés das fábricas se espalham por horizonte além, a densa fumaça logo se junta às outras que criam e cobrem toda a cidade com uma nuvem tão espessa que nenhum raio de sol consegue atravessá-la, a boca da Usina a alimenta constantemente. A Cidade Maldita não via sol há três décadas e meia, desde que em um sábado à tarde quando a nuvem se dissipou com os fortes ventos e após muitos anos, desde o Grande Acidente na Usina, o sol voltou a brilhar e iluminar a face dos poucos habitantes que inda não se haviam retirado. Cintilou por não mais que três minutos.
A estrada segue, caminhões cheios em fila entram na Usina. Caminhões vazios cheios de podridão retornam da Usina. Mas vivalma não há que por ali passe e não deixe um pouco do seu sopro vital, pois, o ar é solido do mal poeirento que destrói as veias, artérias e sonhos.
E por isso não passava via A.., nem mesmo quando reduzisse o tempo da viagem, sem vista, horas de carro de nada me valiam e havia algo a mais, tormentos, assombros, ecos de um vazio ancestral, lembranças. Pensei em retornar pela pequena estrada, mas nenhum mal-estar justificaria o atraso, o cliente não aceitaria.
Era preciso sair logo dali. Tecendo por entre caminhões, na estrada seguia sem conseguir escapar das dimensões da Usina. Então mais uma vez um raio quebra a resistência da Nuvem, e o sol a dividindo a cidade outra vez mais ilumina. Mas tudo é sugado pela insaciável Usina, nada lhe escapa, a luz, o calor, o amor, os sorrisos são a matéria-prima para a nuvem maldita. O sol precisava fugir senão logo também se consumiria. Eu precisava fugir, senão… A palavra “senão” ecoa no carro, toda esta situação não me é estranha, é verdade, é este sonho recorrente que me acompanha por toda a vida, mas sei que não estou sonhando. Fugir, fazer o serviço, me livrar das caixas, das estradas, da Cidade. Sem demora afundei todo o acelerador na estrada novamente vazia, a Usina ficava, mas seus domínios malignos se estendiam até as bordas da cidade. A palavra “senão” ecoa na entrada da ponte e a vertigem me toma, é a Usina que enfim me entrelaça, chama, suga a cada instante meus sopros de vida, todo o meu fracasso se mostra diante aos meus olhos, os sonhos deixados, a mulher esquecida, um trabalho resignado, abdicação de desejos, inda dos mais simplórios, toda a minha acomodação é atirada ao meu encontro, a Usina nada perdoa, a Usina nada perdoa. E ao fim da ponte a vida se anuncia: “Limites dos municípios de C.. e S..”, mas o único fim que vejo é o de atirar o carro ponte e rio abaixo, atirar-me de encontro ao poste de sinalização, como há trinta e cinco anos… Ó não… Não… Senão. Senão.
Trinta e cinco anos antes a palavra “senão” ecoa em um carro como este onde estávamos eu, mamãe, papai e Julinho. A Cidade me assustou e Julinho até chorou, não podíamos ver as árvores que tanto nos distraíam e para acalmá-lo começamos todos a jogar adivinhação. “É homem ou mulher? É da família? Tem bigode? É o Vô Carlos.” Quando de súbito o sol se mostrou, a neblina se desfez e toda a linda paisagem não destruída pela Usina como de um sonho distante emergiu. Julinho tirou o cinto e subiu no porta-malas ver a boniteza que ficava pra trás, eu me virara pelos lados e me atracava com Julinho pelo lugar.
– Vocês fiquem quietos, por que pararam o jogo? Vamos… – disse mamãe – Ponha o cinto.
– Sai pra lá.
– Não! Sai você.
– Sai!
E então papai interveio:
– Parem os dois, senão…
A palavra “senão” ecoa, ecoa.
Um raio de sol atinge forte o para-brisas, papai perde o controle, então o poste, o sangue, a casa de vovó, as brigas na escola, não tenho culpa de ser órfão, não tenho culpa, tenho? Tenho? A saída fácil pelo rio clama-me, o poste quer encerrar o começado. Reuni tudo que me restou e prendendo a respiração alinhei o carro e de olhos fechados segui, segui, e agora vejo a placa “Limites…” já atrás. Estou livre. Saio do carro e corro até uma árvore, apoiando-me nela ponho para fora o almoço, a bile, e todas as tripas que em mais de três décadas a Usina apodreceu.

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