O nazista do elevador

Há pouco mais de dois meses me mudei para um apartamento na Vila Madalena, um pouco menor que o antigo, apesar de mais caro. Nos primeiros dias mal descansei com as mudanças e pude assim escapar da infelicidade de travar-me com os vizinhos. Certo dia o infortúnio escolheu-me e não pude evitar uma conversa – se é possível chamar assim um diálogo em que o interlocutor não retribui uma palavra sequer – com um par de moradoras, senhoras de meia-idade, que versavam sobre um senhor, vizinho de frente meu, um conhecido apenas de vista.

– Sabe? Dizem que ele é nazista! Não vê que anda com a cabeça raspada?

– Isso é porque ele é careca mesmo… Há alguns anos tinha um pouco de cabelo ainda.

– Mesmo assim. Ele sempre faz o cumprimento dos nazistas quando entra no elevador. Ouvi dizer que cumprimenta a si mesmo, que é neto de Hitler, ou reencarnação dele… Algo assim.

– Isso é verdade. É verdade! Eu juro que outro dia ouvi ele mesmo dizer: “Heil Hynkel!” quando chegou o elevador. Cruz credo! Subi pelas escadas.

– Acho que devemos falar com o síndico, vai ver ele faz algum tipo de ritual ou mata alguém? Tenho parentes judeus nos primos de meus avôs… Coitados!

– Hei você! Já que mora em frente a ele, fique de olhos bem abertos. Eu temeria em seu lugar.

E subi as escadas mais cansado da abobrinha que da espera pelo sombrio elevador.

* * *

O segundo encontro com tais damas de sociedade foi mais calmo, pois tive a fortuna de ser apenas ouvinte de uma conversa com o síndico (cínico, se preferir) do prédio.

– Mas quê isso? Vocês estão malucas! (De momento achei a resposta a mais sensata, depois descobri que esta era a sua reação a todas as reclamações. Duvidava até de ter soltado um peido no elevador quando com ele só se encontrava o reclamante).

– Eu juro! Eu vi. Vi sim, a foto de Hitler está pendurada no centro da sala.

– É verdade! É verdade. Estava junto, pude ver aquele homem de bigode. É! Havia um homem de bigode.

– Pode ser qualquer um oras! E se for, o quê que alguém tem a ver com isso?

– Não quero ver cadáver de Madame Arruda estendido no chão! Isso não.

E mais uma vez fui salvo pela campainha.

* * *

Campainha do elevador que logo me trairia ao deixar-me em meu andar para escutar um diálogo entre o senhor síndico e o nazista imundo.

– Desculpe-me. Não ousarei incomodá-lo novamente. Tinha recebido algumas denúncias a seu respeito e precisava verificar para as velhas pararem de me encher com absurdos.

– Bom. Como pôde ver a foto do senhor é de meu falecido pai. E ressalto que independa qual for minha crença, você nem vizinha intrometida qualquer tem direito de incomodar-me. Passar bem!

* * *

Poucos dias depois ao chegar exausto de mais um inútil dia de enrolações e adulações trabalhistas apertava o botão de meu andar quando o maldito nazista parou a porta fazendo a temida saudação. Lembrei-me das conversas e por instinto modificaram-se as minhas feições, o que provocou uma reação em meu novo inimigo.

– Não me vá dizer que é mais um deles? Tá bom. Está bom. Sou nazista e como criancinhas no café da manhã.

– Olhe meu senhor, eu não dou a mínima se você é ou deixa de ser nazista, comunista, anarquista, terrorista desde que me deixe em paz. Se quer mesmo saber minha opinião é esta: É óbvio que você não é nazista. Essa gente desmiolada não percebe que seu nome é Jacob! E quanto ao elevador não é preciso pensar muito para notar que coloca a mão em frente ao sensor de movimento para a porta não fechar. Desta porta deveriam sim reclamar, fecha rápido demais. Já tomei várias pancadas.

O senhor sorriu e entrou calmamente em seu apartamento.

* * *

O causo é que há duas semanas este mesmo senhor foi preso ao liderar uma manifestação de neonazistas em que descarregou uma pistola 9mm em um casal de homossexuais; e agora encontra-se internado em uma hospital psiquiátrico. Pois é, meus caros, um judeu nazista.

E qual é a moral da história? “As aparências nem sempre enganam”. Claro que não! Não há moral alguma, droga! Nem tudo é lógico, nem tudo é louco. Quer uma moral? : Já estou à procura de outro apartamento.

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