A vitrola

Paz absoluta no Reino dos Soares.

Um riso silencioso ecoa na mente do respeitável monarca. Marcelo debruçado sobre a pequena escrivaninha repleta de papéis, estes repletos de números, revisa os últimos cálculos contendo-se para não pular de felicidade. Finalmente ele o teria! Já se pode ver-se sentado em sua poltrona de olhos fechados, o jazz e o mundo, o jazz e nada mais, o melhor som que já ouvira, a melhor época que jamais teria. Um avô e um menino, a nostalgia da infância o atravessa como um dardo molhando a séria face. Da última gaveta retira os discos de vinil, sopra e passa a mão retirando a poeira imaginária. Sim, um menino sentado no braço do sofá do avô a aprender e contemplar, o jovem príncipe e o velho rei. Mas subitamente o cenário é outro; e não há mais senhor de cabelos grisalhos, os mesmos discos repousam numa mesa com o mesmo aparelho ao lado. O menino já maior corre pela casa a chamado da mãe, tropeça, bate na mesa tombando-a, discos ao chão, aparelho aos pedaços. O rei novo ergue-se e mostra sua fúria, nem apelos da mãe, nem súplicas do filho – a justiça foi feita. Marcas eternas, cicatrizes que ainda hoje doem. E passa as mãos nas costas após colocá-los de volta na gaveta.
Chega de tristezas passadas, agora falta pouco para o perdão e o restabelecimento da tradição com o mesmo raro aparelho, já reservado no antiquário.
A paz reina em quase absoluto, há apenas um som melódico abafado pela porta do quarto do filho. Marcelo já se acostumou e nem percebe tais barulhos. À sala do trono senta-se ostensivamente na poltrona e liga o grande aparelho televisor, urrando ao primeiro gol perdido da transmissão vespertina do futebol europeu. A sala, não muito grande – mas de tamanho considerável se em conta outros empreendimentos do tipo – comporta a poltrona, um sofá de dois lugares, uma mesa de centro e uma estante embutida contendo a televisão, parcos livros passageiros, reprodutores de vídeo e caixas de som; será a futura morada do magnífico aparelho. Detrás da sala vemos a pequena cozinha, do lado desta a porta do banheiro, e em um corredor as portas do quarto da filha, do filho, e a suíte… “Goooooooooool!”. A vida é bela, o time vence, ele vence na vida, vence a vida, bom emprego, um apartamento dos sonhos em um bairro residencial, bairro calmo, de velhos descendentes de italianos, assim como ele. Uma linda e maravilhosa mulher; uma filha querida e exemplar; um filho que lhe dará inda muitas alegrias – um varão para continuar o nome da família! – e o doce vinil. Ah doce vinil! Sim, não há dúvida, ele é rei num conto de fadas. Ajeita-se na poltrona, sorri e segue acompanhando o jogo.
A música para e um som de trinco incomoda a paz do soberano. A porta do quarto do filho se abre e dele saem o filho e outro jovem.
– Pai! Preciso de dinheiro pra eu e o Moacir irmos ao cinema.
– Paulo! Quantas vezes já lhe disse para não se trancar no quarto?! Sobretudo com visitas…
– Ai, para pai! Dá logo o dinheiro senão perdemos a sessão. – e antecipou-se para pegar as notas que o pai retirava da carteira.
Esse Moacir é estranho, mechas coloridas não é sinal de boa coisa; as roupas justas incomodam. Marcelo assusta-se na cadeira ao ver os dois saindo. Por um momento teve a impressão que o filho usava as calças jeans que ele dera de presente de aniversário à filha. Deve ser cançaso na vista. Tem de ser…
Já no corredor ouve as últimas falas audíveis dos garotos: “Vamos logo Paulete senão o filme começa.”.
“Goooooooooool!”. E as preocupações dissipam-se. Basta de paranóia. Lembra-se dos discos, em breve o filho contemplará ao seu lado a mais perfeita e agradável música.
Aos ouvidos chega uma voz estridente e um girar de maçaneta. É a bela rainha que regressa ao lar para amar e servir o nobre senhor. Larga a bolsa sobre a mesa, continua a falar – gritar, tanto faz – ao celular (“Mas você viu a audácia da Mariazinha? A Carmen não esperava algo assim dela…”), empurra o marido pro lado na poltrona, e em um movimento rápido usurpa o controle remoto colocando na novela antes que o estupefato esposo pudesse pensar em proferir qualquer protesto. Este resolve sabiamente ficar calado.
Finda a novela, ela levanta-se e devolve o controle ao deposto dono e diz:
– Amor, vou ao salão…
– Que?! De novo? O que nós conversamos sobre gastos desnecessários? Você não foi lá ontem mesmo?
– Ah Marcelo, larga a mão de ser pão-duro. – e tomou-lhe a carteira – Você passa todos os dias batendo perna no trabalho até tarde enquanto eu fico em casa a toa, tenho meus direitos também! – e a carteira regressou ao dono com três notinhas de cinquenta a menos.
– Amanhã temos um jantar na casa da mamãe, tenho que estar bem bonita, não vai querer que me ofusque com o retorno de Cláudia…
– Mas ela é sua irmã, oras. Deveria é se orgulhar…
– Sem mas! – e partiu.
O jogo acabou. Quanto será que foi? Finalmente de volta ao sossego. Um bom filme enquanto os discos descansam à espera Dele.
Vendo sua filha caminhar em direção à porta, e vendo coisas que não desejava ver, diz:
– Vai sair desse jeito? Coloque uma blusa.
– Não tenho roupas… Ô pai, me dá dinheiro para eu comprar umas calças?
– Ora, eu não lhe dei uma agora mesmo no seu aniversário?
– Não sei onde estão. Tudo some nesta casa. E, sabe, eu queria aproveitar e comprar uma jaqueta também paizinho. Assim você não reclama que ando sem blusa. Não quer que sua filhinha tome friagem, quer?
– Está bem, está bem. Mas veja lá em, não vá gastar tudo. – e tirou outras preciosas notinhas da enfraquecida carteira.
De volta à escrivaninha, um soco na mesa impõe respeito aos fantasmas da casa, mas os números nunca se curvam. Um choro contido ecooa na alma do pobre vassalo. Não, ele não o teria. Não seria agora, quem sabe no próximo mês, mas haverá a viagem, no outro talvez. É talvez…
E, assim, o jazz conduz distante o reino que anseia pelo rei exilado.

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