Onze horas

São quase onze horas. A chuva crespa o chão noturno limpando a decomposição diária, decomposição dos corpos e da mente daqueles que pela cidade vivem. E na típica figura do homem inconformado pela própria conformação tal som ébrio é o alívio dos sentimentos reclusos. É momentaneamente deixar de lado os pensamentos não-pensados. O escorrer da água morro abaixo é a torneira para limpar o sangue de suas mãos, sangue inocente, sangue que jurou nunca tocar, muito menos tomar por sacrifício, muitos sacrifícios, sua própria vida.

São onze horas. A chuva cai impassível e a cidade não dorme; eterna insônia infernal. Mas a vida daquele aguarda em suspenso, aguarda o dia seguinte, aguarda o seguir da vida, culpando-se pelo desperdício dos dias passados e presentes, desperdiçando assim todas as noites, noites sem vida, noites como ele.

São onze horas passadas. A chuva anuncia o dia por vir, o caos que combate o caos gerando, nos corações humanos, mais caos. Caos insone que atormenta a mente, caos insone que obriga ao sono pelo bom trabalho no dia seguinte. E assim a imundice aflora-se resistindo à toda chuva, anunciando o surgir de mais um triste e inconcebível dia.

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